Venezuela

A venezuelana muralista que aborda temáticas sociais

Dulce questiona representações que idealizam o artista como alguém distante da sociedade, figura canônica geralmente movida por um saber metafísico que o coloca acima do bem e do mal. “Para mim não é dessa forma”, ela diz. Desde que se começou a estudar Desenho Integral Comunitário, na Venezuela, e após se aproximar do trabalho de muralistas engajados com temáticas sociais, a jovem desenvolveu um olhar sociológico para elaborar sua arte.

A experiência migratória recente despertou na artista uma atenção especial voltada à cultura brasileira. “Gosto muito das cores das estampas que as mulheres brasileiras usam, esse aspecto multicultural…”, destaca. O sincretismo dos encontros entre diferentes culturas no Brasil é o campo que Dulce pretende explorar num futuro próximo, assim que retomar os estudos na área das artes visuais. A venezuelana ainda não decidiu se irá cursar Artes Visuais ou Sociologia, mas já decidiu que será na USP – em breve ela começa o cursinho popular preparatório.

Seja qual for a área escolhida, Dulce acredita que os estudos irão ajudar seu trabalho influenciado por temáticas sociais, cujas obras “não tratam necessariamente da estética no sentido da beleza, mas uma arte que grita e confronta”, explica. A migração é outro tema a ser abordado, não à toa a artista venezuelana observa com atenção a cultura brasileira: músicas, roupas e idioma, aspectos que tanto diferem do seu país de origem.

A Venezuela e o recomeço em outro país

Questionada sobre a situação da Venezuela, Dulce destaca a complexidade da situação de seu país: “é uma crise global que o mundo está vivendo. Não apenas a Venezuela, mas países subdesenvolvidos. Isso a nível social é muito difícil, porque toda a crise traz problemas psicológicos e físicos”. Segundo ela, no Brasil há questões que se aproximam um pouco da crise atual do país vizinho, como o fato de as pessoas deixarem de falar com amigos e familiares por causa de divergências políticas.

A jovem vive no Brasil com os irmãos há cinco meses e tem cultivado uma impressão positiva sobre os brasileiros. Para ela, aqui as pessoas geralmente são alegres, atenciosas e cheias de vibrações positivas. No entanto, Dulce entende que a adaptação em outro país é sempre um processo difícil.

Entre as lições aprendidas nesses primeiros meses, a venezuelana destaca uma reflexão que repensa alguns conceitos de pertencimento e identidade nacional. “Quando cruzei a fronteira me dei conta que estamos na mesma terra. Somos do mesmo mundo, estamos apenas divididos por uma linha. Não somos diferentes, somos os mesmos. Somos de todas as partes, somos seres nômades e andamos. Isso me deu uma visão diferente da ideia ‘sou venezuelana’. Eu gosto do lugar onde nasci e cresci, mas não irei fanatizar isso. Migrar me deu outro nível de consciência”, ela diz.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *